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Bitcoin mudou e a maioria dos investidores não viu

5 de junho de 2026
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O que uma venda de 32 bitcoins tem a ver com a sua carteira? Em condições normais, nada. Mas em junho deste ano, essa venda fez o preço do Bitcoin cair quase 10% em poucas horas. Porém, o motivo não foi o volume e sim quem vendeu. Michael Saylor, cofundador da Strategy, era o homem que havia prometido publicamente nunca se desfazer de um único bitcoin. Sua empresa acumulou mais de 840 mil unidades ao longo dos anos. Logo, quando ele vendeu, o mercado entendeu que algo havia mudado. 


Nesse sentido, o episódio não foi relevante pelo tamanho da venda e sim pelo que ela revelou: quando grandes instituições entram no mercado, as regras mudam. O Bitcoin passou a responder a decisões corporativas, fluxos de ETFs e obrigações financeiras de empresas listadas em bolsa. Dessa forma, ignorar este fator é tomar uma decisão de alocação desatualizada. 


O padrão que todo mundo seguia

Diferente do dólar, que pode ser impresso sem limite, o Bitcoin tem escassez programada. Ou seja, a cada quatro anos, o número de bitcoins novos criados por dia é cortado à metade. Esse corte se chama halving. Assim, com menos oferta e demanda estável, o preço tende a subir. Foi o que ocorreu em 2013, em 2017 e em 2021. Desse modo, o padrão se repetiu com consistência notável:


  • Após o halving de 2012, o Bitcoin saiu de cerca de US$ 12 e chegou a US$ 1.150 em 2013.
  • Após o halving de 2016, subiu de US$ 650 para quase US$ 20.000 em 2017.
  • Após o halving de 2020, partiu de US$ 8.700 e atingiu US$ 69.000 em novembro de 2021.


Portanto, cada ciclo seguia uma narrativa parecida: euforia, topo explosivo, queda acentuada de 70% a 85%, período de lateralização, e então um novo halving reiniciando o processo. Logo, para muitos investidores, esse ciclo de quatro anos funcionava como um relógio: imperfeito, mas confiável o suficiente para orientar decisões de alocação.


O que fez o relógio do Bitcoin parar

O halving de abril de 2024 mudou algo estrutural. Pela primeira vez na história do Bitcoin, o ativo atingiu uma nova máxima histórica antes do halving acontecer: em março de 2024, semanas antes do evento. Isso nunca tinha ocorrido. Dessa forma, a explicação está em uma mudança de perfil dos compradores.


Em janeiro de 2024, os Estados Unidos aprovaram os primeiros ETFs de Bitcoin à vista, permitindo que grandes gestoras como BlackRock e Fidelity oferecessem exposição direta ao ativo para investidores institucionais. Então, o efeito foi imediato: bilhões de dólares entraram no mercado por canais que antes simplesmente não existiam. Assim, a demanda institucional antecipou a descoberta de preço que normalmente só acontecia meses após o halving.


Paralelamente, empresas passaram a adotar o Bitcoin como reserva estratégica no balanço, uma prática que antes era considerada excêntrica e que hoje conta com dezenas de companhias listadas em bolsa. Países como os Estados Unidos e El Salvador já mantêm Bitcoin em reservas oficiais. Como resultado, o perfil do mercado deixou de ser dominado por pessoas físicas movidas por narrativa e passou a incluir instituições com horizontes de prazo mais longos e gestão de risco mais disciplinada.


Essa mudança tem uma consequência direta sobre a volatilidade. Investidores institucionais tendem a aumentar exposição em quedas e reduzir em altas expressivas, comportamento contracíclico que naturalmente suaviza os extremos. Por isso, é provável que o ciclo de 2024-2025 não tenha produzido aquela alta parabólica característica dos ciclos anteriores. No entanto, o Bitcoin chegou a US$ 126.000 em outubro de 2025, um novo recorde histórico, mas sem o blow-off top que marcou 2013, 2017 e 2021.


Bitcoin institucional: mais robusto, mais complexo 

Seria tentador concluir que o Bitcoin ficou mais seguro. Porém, a realidade tem mais nuances. Ao se institucionalizar, o Bitcoin ganhou novos vetores de risco que antes não existiam. Afinal, quando grandes detentores enfrentam pressões financeiras, seja por estrutura de dívida ou obrigações com acionistas, suas decisões de venda passam a ter peso desproporcional sobre o preço. Nesse sentido, o episódio de junho de 2026 com a Strategy ilustra exatamente isso: não foi a venda em si que moveu o mercado, mas a narrativa que ela carregava e o tamanho do agente envolvido. 


Da mesma forma, a correlação do Bitcoin com outros ativos de risco aumentou. Em momentos de estresse nos mercados globais, como aperto de liquidez, aversão a risco e alta de juros, o comportamento institucional tende a reduzir exposição de forma coordenada. Assim, o Bitcoin deixa de funcionar como ativo descorrelacionado, o que é relevante para carteiras que o incluíam justamente com esse propósito. 


Dito isso, o ciclo de quatro anos pode não ter acabado e sim apenas se alongado, ficado menos previsível e mais sensível ao ambiente macroeconômico global. Tanto é que gestoras como Fidelity já sinalizaram que o padrão histórico precisa ser recalibrado: não descartado, mas relido à luz de uma nova estrutura de mercado. 


O que isso muda para o investidor

Para quem tem Bitcoin em carteira ou considera incluí-lo, algumas perguntas se tornam mais relevantes do que tentar adivinhar o próximo passo:


Qual é o tamanho adequado da alocação em Bitcoin? Um ativo que pode recuar 40%, 50% ou mais no caminho, mesmo dentro de um ciclo de alta, exige uma alocação compatível com o prazo e a tolerância à volatilidade do investidor. Afinal, tese correta e tamanho errado produzem resultado errado. 


Qual é o horizonte real de investimento? Os dados históricos favorecem quem consegue manter posição por ciclos completos. Ou seja, quem precisar do capital no curto prazo está exposto a um timing de entrada e saída que pode anular qualquer retorno. 


Como o Bitcoin se encaixa no restante da carteira? Com correlação crescente com ativos de risco, faz sentido revisitar o papel que a criptomoeda ocupa em relação a outras exposições do portfólio. Logo, ignorar essa dinâmica pode criar concentrações de risco invisíveis.


Essas não são perguntas com resposta única. São, porém, perguntas que merecem uma análise cuidadosa, considerando o perfil e os objetivos de cada investidor. Quer entender como o Bitcoin pode ou não fazer sentido na sua estratégia de alocação? Converse com um assessor Polyface.

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